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Organização de Apoio à Adoção

E SE OS PAIS SOUBESSEM…

E SE OS PAIS SOUBESSEM…

E SE OS PAIS SOUBESSEM…

É fundamental que os pais possam estudar realmente sobre a adoção tardia, visando aprenderem que alguns testes podem ser extremamente pesados e difíceis de suportar.

Ninguém adota uma criança feliz. Esta frase impactante não é minha, mas de um autor muito importante para minha formação Decebal Andrei em seu livro Reencontro com a esperança – reflexões sobre a adoção e a família (1999). Teoricamente todos sabemos disso, mas na prática essa premissa é esquecida. Toda a criança adotada, seja ela bebê, criança maior ou ainda um adolescente, enfrentou a rejeição em algum momento de sua vida, o que muitas vezes é uma experiência vivenciada de forma a dar vasão a fantasias infantis juntando-as com a triste realidade que viveram. Desta forma, precisamos concordar que sim, ninguém adota uma criança feliz, se ela foi encaminhada para a adoção não traz consigo uma história de felicidade, mas que poderá vir a tornar-se feliz com sua nova família, desde que esta possa compreendê-la e assim lhe dar o amor necessário, de forma realmente incondicional.

A partir dessa constatação quero aqui expor algumas questões que venho observando ao longo de minha caminhada nesse mundo da adoção. Tenho visto diversos casos crianças com o diagnóstico de Transtorno de Oposição Desafiante para crianças maiores recém adotadas. Penso que esse diagnóstico pode até ser correto, se considerarmos os sintomas de forma isolada. Entretanto, uma das caracteristicas principais  da adoção tardia ou adoção de crianças  maiores é justamente as dificuldades na adaptação. Essas dificuldades incluem uma gama de atitudes e reações que a criança pode apresentar e que parecem fazer parte dos sintomas para esse transtorno. Entretanto, analisando o contexto em que as crianças estão (adoção recente), podemos perceber que esses sintomas nada mais são que apenas os sintomas esperados para a fase de adaptação em que se encontram, o que mostra que não há necessidade de serem diagnosticadas ou mesmo medicadas para o dito transtorno. É evidente que em alguns casos mais específicos a medicação pode ser necessária, mas muitas vezes serve mais para acalmar e dar suporte aos pais do que à própria criança que esta fazendo uso da mesma.

Desta forma, gostaria de salientar aqui a importância da preparação efetiva dos pais adotantes, para que possam compreender os testes de amor e de  limites que toda a criança faz mas q na adoção são muito mais intensos e significativos, pois a criança precisa se certificar de que é amada e que aquela nova familia será para sempre sua. Esses testes não são fáceis. Para alguém desavisado pode parecer que a criança está em surto psicótico, ou seja, com um transtorno grave. Profissionais que não estejam engajados nos estudos sobre adoção tardia podem chegar a diagnosticar uma criança em fase de adaptação da adoção tardia como uma criança perturbada por um grave transtorno. Não estou dizendo aqui que todos os diagnósticos estão errados, mas que os profissionais dessa área precisam estar atentos para a fase que a criança e a família estão vivenciando e entender o seu contexto. Isso tudo é muito importante não somente para evitar que crianças que apresentam comportamentos absolutamente dentro do esperado para seu momento de vida, sejam medicadas sem necessidade, mas principalmente para que os pais recentes não se assustem achando que foram enganados e que lhes deram crianças “problemáticas”, “perturbadas” ou “doentes”, quando na verdade estas crianças ou adolescentes estão apenas passando pela fase normal de adaptação na adoção tardia. Dentro deste contexto de diagnósticos equivocados já vimos casos de devolução de crianças por conta disso. Por isso é fundamental que os pais possam estudar realmente sobre a adoção tardia, visando aprenderem que alguns testes podem ser extremamente pesados e dificeis de suportar, mas que fazem parte dessa modalidade de adoção. O acompanhamento psicológico nesses casos mais dificeis pode certamente auxiliar os pais e as crianças a suportarem essa fase da melhor forma possível, sem ser necessariamente indicado o uso de medicação. O mais importante é que os pais possam compreender que a fase de adaptação é delicada, com características muito específicas, a qual incluem os testes de amor e de limites e também a regressão do comportamento da criança que busca “renascer” na nova família. Os pais precisam compreender tudo isso para saber a melhor forma de manejar essas situações. Para os novos pais dessa criança tudo é novo, assim como para ela. Por isso é tão importante que os pais possam estar a par do que os espera quando estão adotando uma criança maior ou adolescente. Assim como esta preparação deverá continuar no pós adoção em grupos de apoio à adoção, a fim de que as dúvidas e momentos de angústia possam ser partilhados e expostos no grupo, favorecendo o alívio das ansiedades e também a preparação de outros pais.

Importante salientar que a fase de adaptação não tem uma duração fixa, mas sempre dura muito tempo, sendo anos e nao meses. E esta fase depende somente da capacidade dos pais em conseguir demonstrar amor pelo seu filho. Aquele amor q todos falam, o tal amor incondicional. Amor mesmo na hora da briga, na hora que o filho faz coisas inimagináveis, como urinar na sala em pé, te olhando nos olhos, porque tudo o que ele busca é saber se fazendo uma coisa muito inadequada ainda continuará sendo amado. Quando falo sobre adaptacao, não falo só de teorias, falo também da prática. Sou psicóloga e estudiosa da adoção, sou mãe de três filhos, dois biológicos e um adotivo, que chegou para nós aos seis anos e nove meses. A adaptação de nosso filho durou em torno de três anos. Posso dizer que se não estivéssemos preparados, talvez não tivéssemos forças para suportar todo o período de adaptação e para entender o que ele sentia e o quanto precisava de nossa compreensão e amor. Hoje ele é um jovem saudável, inteligente e que nos dá muito orgulho. Passamos por tudo o que precisávamos para que ele renascesse na nossa família, sabendo que estávamos aqui para tudo o que ele precisasse, que nosso amor era e é pra sempre.  E é somente isso que toda a criança ou adolescente deseja, uma família que a ame de verdade, mesmo que ela não seja perfeita, que ela tenha uma história triste, que ela venha de uma vida triste, mesmo que ela não seja uma criança feliz. Toda a criança e todo adolescente só quer ter uma família que a aceite e a faça feliz de verdade. Toda a criança pode ser feliz se tiver uma família que a ame incondicionalmente, que a compreenda em suas necessidades afetivas, que possa lhe dar o amor do jeito que ela busca, aquele amor da hora difícil, do momento de testes. Se os pais conseguirem, passarão no teste, se não conseguirem, aquela criança nunca será uma criança feliz. Tudo depende dos pais. Somente dos pais.

 

Lizianne Cenci é Psicóloga, Mestre em Educação e Especialista em Psicologia Jurídica com ênfase em adoção tardia. Trabalha há muitos anos na área da adoção e apadrinhamento afetivo, orientando pais e famílias

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