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Organização de Apoio à Adoção

A adoção nos tempos do EU – Por Shirley Machado

A adoção nos tempos do EU – Por Shirley Machado

A adoção nos tempos do EU – Por Shirley Machado

“Eis o perverso culto do EU, das pessoas voltadas tão somente para o seu próprio bem-estar; uma busca incessante por satisfação pessoal, que não leva em consideração o outro, mesmo que esse outro seja apenas uma criança. 
São esses, os cultuadores do EU, que afirmam sem o menor constrangimento: 

-EU não consigo me adaptar…sei que disse que queria, mas na verdade percebi agora que estava enganado e a adoção está atrapalhando a MINHA vida e o MEU relacionamento.”

A adoção nos tempos do EU
 
Semana passada, estive no Fórum Cível. Tinha mandados a cumprir lá. Ao terminar, passei em frente ao setor de Assistência Social e decidi entrar, para dar um abraço na Assistente Social que conduziu o meu processo de habilitação, e por quem tenho grande carinho até hoje. Aliás, mantenho contato com as “minhas” assistentes sociais, tanto a do processo de habilitação, quanto a do processo de adoção, lá no Nordeste. Elas são informadas do crescimento e evolução das crianças, veem fotos, se alegram com a felicidade deles. Gostamos dessa troca, mesmo decorridos anos do fim do processo de adoção.
Por sorte, a encontrei e aproveitamos para tricotar um pouquinho.Nessas oportunidades, quase como um desabafo, ela usualmente me conta das ocorrências mais marcantes. Sempre muito discreta, e muito ética, ela jamais menciona nomes, mas me conta alguns dos casos cabeludos que acontecem no cotidiano de quem lida com adoção.E quando ela terminou de falar, ficamos lá, nós duas, nos perguntando o que está acontecendo. A lei realmente não está focada nos adotantes, suas necessidades, expectativas e vontades.A adoção não existe para os adotantes.Ela existe para as crianças! Para dar uma família a crianças que não a tem. O objetivo é garantir seu crescimento em ambiente saudável, não apenas do ponto de vista material, mas também intelectual e emocional. Portanto, se houvessem 2 ou mais famílias brigando pela guarda da mesma criança, o Juiz teria que decidir por aquele que fosse melhor para a CRIANÇA, e não o adotante que fosse mais rico, mais jovem, mais maduro, mais simpático, etc.Por isso é que existe a fila. Estando todos habilitados (e portanto previamente avaliados e considerados aptos a adotar) a indicação para adoção fica mais justa e equilibrada.A possibilidade de não aceitar uma criança que é indicada pela VIJ está garantida por lei. Isso quer dizer que ninguém é obrigado a acolher uma criança, se não desejar.Mas havendo recusas repetidas diz a lei que a habilitação deve ser reavaliada.E ocorre infelizmente que as recusas estão aumentando.Contou-me a AS que recentemente nasceu na Comarca um garotinho, filho de mãe portadora de sífilis. A genitora fez entrega voluntária, e o bebê foi imediatamente encaminhado para adoção. Os vinte primeiros habilitados disseram NÃO, porque não aceitam meninos, só querem meninas, só podem amar meninas.Outros tantos, que aceitam meninos, também disseram NÂO porque foram avisados da possibilidade de a criança trazer algum traço da sífilis.A VIJ não mantém convênios que possibilitem a realização esses exames, gratuitamente. Os adotantes devem fazê-lo. A AS tem o dever legal de avisar aos adotantes sobre esta possibilidade, para que eles não se sintam no futuro enganados e venham devolver a criança, pois só aceitam crianças saudáveis. E aqueles que foram consultados, disseram NÃO aceitavam. Por fim, encontrou-se na Comarca um casal que aceitou o bebê. Feitos todos os testes e exames necessários, concluíram que a criança era totalmente saudável. E houve quem apareceu para reclamar, quando soube do fato. Vieram furiosos dizer que, se soubessem que a criança era saudável, teriam aceitado. E que a Justiça é que tinha a obrigação de realizar todos os exames. Sentiram-se prejudicados, pois a fila, para eles, não andou.Contou-me também que não faltam candidatos que, tendo sido sugerido pela equipe técnica uma suspensão do processo de habilitação, com a orientação para buscar apoio psicológico ANTES de se habilitar, encaminham petições inconformadas ao Juiz, sentindo-se perseguidos, discriminados, afirmando que nada disso é necessário. E já aconteceu de o tempo passar, esse mesmo candidato ser habilitado, ser chamado para conhecer uma criança DENTRO do perfil que escolheu, e DEVOLVER a criança após algum tempo, dizendo que “não se adaptou”. E disse ainda, para meu espanto absoluto, que acontecem cada vez mais devoluções de BEBÊS, por pessoas que “não sabiam que teriam tanto trabalho” e “entraram em crise” ante a responsabilidade que lhes chegou. Que as razões alegadas para as devoluções de crianças pequenas são tão diversas quanto fúteis, como por exemplo:“ele come muito” – “ela não me obedece” – “ele grita demais” – “ela fala muito na mãe biológica” – “meu filho biológico não se dá bem com ela” – “eu engravidei” – “ ele está criando problemas no meu casamento” .Eis o perverso culto do EU, das pessoas voltadas tão somente para o seu próprio bem-estar; uma busca incessante por satisfação pessoal, que não leva em consideração o outro, mesmo que esse outro seja apenas uma criança. São esses, os cultuadores do EU, que afirmam sem o menor constrangimento: -EU não consigo me adaptar…sei que disse que queria, mas na verdade percebi agora que estava enganado e a adoção está atrapalhando a MINHA vida e o MEU relacionamento.-EU decidi mudar o nome da criança por outro, que EU acho mais bonito, porque EU sempre sonhei em ter uma filha chamada…(ponha o nome que quiser), mas ela não me atendia quando eu a chamava, então significa que ela não é a escolhida de Deus para mim, porque a filha que Deus escolher para mim aceitará o nome que EU sonhei para ela e ficará feliz ( sim, acredite se quiser, mas há quem coloque Deus para justificar o próprio egoísmo, como se por acaso Deus tivesse preferencias e decidisse abandonar qualquer de seus filhos à própria sorte por causa de um nome) . -EU não quero falar sobre adoção com meu filho, porque o assunto não ME interessa.-Se um dia minha filha quiser procurar sua família biológica EU vou ficar chateada, então EU decidi que o melhor é ela não saber que tem irmãos;-O Juiz pediu para eu manter contato, mas EU resolvi não fazer, porque essa é a MINHA casa e é o MEU filho, portanto eu vou fazer o que EU quiser, da maneira que for melhor para MIM, e ponto final.E mais, alguns chegam a acreditar que só a criança é que precisa se adaptar. Afinal, ele (a) chegou no ambiente e não tem que mudar nem atrapalhar nada, pois os adotantes pretendem ficar exatamente como estão, instalados em sua rotina confortável, à qual já estão habituados. Qualquer forma de renúncia em nome do bem-estar da criança que chega é encarada como uma perda com desagrado e pode facilmente trazer arrependimento.Por fim, com um suspiro oscilando entre a resignação e a tristeza, ainda me contou a experiente AS que o que mais causa medo, insegurança e mais atrapalha o processo de vinculação das crianças maiores é o fato de os adotantes dizerem para elas ou em sua presença: “Vamos ver se vai dar certo…”.Ou seja, estamos fazendo um test drive, experimentando o produto…se acharmos que não nos convém, então não deu certo com esse.Amigos, a guarda é provisória para fins processuais…..para que os demais atos do processo transcorram sem estar a criança abrigada, não significa que se trata de uma experiência, de um teste, ou mera tentativa. A partir do momento que você pegou no colo o bebê pelo qual tanto esperou, ou pegou pela mão sua criança e a tirou do abrigo, entenda que isso é IRREVOGÁVEL! E você deve dizer, sempre e sempre, e sempre, por anos a fio se necessário for, que aquele (a) é SEU FILHO e o será para sempre. As crianças precisam sentir segurança; elas precisam saber que é pra valer.Quando temos filhos, o bem-estar deles vem primeiro. As necessidades deles é que são prioridade, e não as nossas. Vocês, que chegam a gora no universo adotivo, por favor estudem o assunto com afinco. Busquem livros, matérias, programas sobre o assunto. Tenham em mente que VOCES são os adultos da historia e que é SUA a responsabilidade de fazer dar certo a convivência, e não das crianças. Se não se sentir preparado, não adote. Dê um tempo, estude mais, pense melhor, converse muito com o seu parceiro caso esteja adotando com seu cônjuge. Ninguém é obrigado a nada. E se você tiver CERTEZA que está preparado, que está disposto a constituir realmente uma família, entenda que família não tem a ver com EU; família se forma no plural. Em família, NÓS vamos, NÓS queremos, NÒS fazemos, NÓS tentaremos até dar certo. Crianças não são objeto. Não são seres destituídos de sentimentos, e não existem para satisfazer nossos desejos. Se você quer alguém que te ame incondicionalmente desde o primeiro momento sem você precise fazer nada para conquista-lo, alguém que nunca te responda, que não dê trabalho nem preocupações, seja sempre obediente, devotado e carinhoso mesmo quando você nem merece, você não precisa de filhos. Você precisa de um cãozinho.Texto de Shirley Machado

Fonte: ELO – Organização de Apoio à ADOÇÃO: A adoção nos tempos do EU – Por Shirley Machado

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