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Organização de Apoio à Adoção

Adoção Irregular: O Atalho Não Vale a Pena

Adoção Irregular: O Atalho Não Vale a Pena

Adoção Irregular: O Atalho Não Vale a Pena

Por Annie Kier, Juíza de Direito do Juizado da Infância e Juventude de Canoas.
 
Adotar é um ato de amor. Amor para dar, receber, trocar. Pelo menos na grande maioria das vezes, o que leva uma pessoa a buscar à adoção é este sentimento, nobre e puro. O caminho a ser trilhado exige que o pretendente passe por avaliações e aguarde por longo período, ao menos quando se trata de um recém-nascido, até chegar a sua vez. Estes obstáculos levam algumas destas pessoas, mesmo que cheias das melhores intenções, a procurarem atalhos que acabam contaminando totalmente o percurso.
O que era para ser um trajeto permeado por amor, cuidado e entrega, acaba sendo marcado por medo, escuridão, mentiras, prática de variadas ilegalidades e até mesmo de crimes. Sim, porque quem recorre a uma adoção irregular, o faz na clandestinidade, sem prévia habilitação ou qualquer acompanhamento, algumas vezes prometendo ajuda ou até dinheiro para gestantes que não pretendem ficar com os filhos. Sem mesmo se dar conta, quem opta pela adoção irregular, estimula práticas desprezíveis e criminosas como o tráfico de crianças. Além disso, aqueles  que atalham não têm outra alternativa senão esperar, escondidos, por anos, até o momento em que os vínculos afetivos já se formaram e se torna possível obter a guarda judicial da criança.
Do outro lado desta mesma moeda, a adoção ilegal desprestigia quem se submete à habilitação e espera ansiosamente a chegada do filho desejado. Quando uma mãe procura o Juizado da Infância para entregar o filho em adoção, a criança é imediatamente encaminhada aos cadastrados mais antigos, não passando um dia sequer em um abrigo. Cai por terra, assim, o argumento muito usado para justificar o “atalho”, de que crianças crescem nos abrigos aguardando a adoção.
Uma história tão linda como a de uma adoção não pode ser maculada com sentimentos, atitudes e repercussões tão negativas. Que laços de amor e afeto se formarão com base em medos e mentiras? Não. O atalho não vale a pena. O amor por um filho não pode ser um sentimento egoísta. A criança apta à adoção não é uma mercadoria. Ela tem o direito de ser encaminhada à família adotiva que foi considerada capaz de lhe receber, bem como o de ter o acompanhamento técnico durante todo o processo. Tem o direito absoluto e inafastável de viver às claras com sua família e com a comunidade que lhe cerca. Cabe, então, a pergunta: a quem interessa o atalho? Certamente que não à criança, pois com poucos dias de vida, já tem uma série de direitos violados, alheia ao sistema, sem qualquer proteção.
A conclusão é simples e deve ser enfrentada de uma vez por todas: enquanto famílias aceitarem bebês ou crianças de forma clandestina e sub-reptícia, as mães biológicas que consentem com a adoção jamais procurarão as autoridades para que a colocação em família adotiva ocorra regularmente e, consequentemente, o processo de adoção nunca deixará de ser demorado como hoje se observa.
Este ciclo precisa ser quebrado para que o sistema de adoção no Brasil, especificamente no que se refere a crianças pequenas, seja bem sucedido. Quem hoje cogita uma adoção irregular precisa confiar no caminho legal e ter a consciência de que, antes de atender ao seu desejo pessoal de vir a ser pai e mãe, deve observar o preponderante interesse da criança, a quem é garantido o direito de ser encaminhada a uma família previamente avaliada

O presente texto leva em consideração a adoção de bebês ou crianças pequenas, um contexto muito específico no Brasil.

Fonte: ELO – Organização de Apoio à ADOÇÃO: Adoção Irregular: O Atalho Não Vale a Pena

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