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Organização de Apoio à Adoção

Deu defeito? Apertando os Parafusos – por Peterson Rodrigues

Deu defeito? Apertando os Parafusos – por Peterson Rodrigues

Deu defeito? Apertando os Parafusos – por Peterson Rodrigues

Costumo dizer que a criança que você conhece no primeiro dia é uma; a que a equipe técnica te apresenta quando conta sua história é outra; a que visita a sua casa é outra e finalmente quando vem para casa definitivamente é outra. Qual dessas versões é a real? Todas. Nós somos assim, mudamos de acordo com o ambiente.

Uma coisa é certa, as ‘primeiras’ se esforçam para conquistar você, a ‘da equipe’ às vezes lhe assusta e a ‘versão definitiva’ geralmente dá defeito no transporte e cabe a você ir apertando os parafusos com o tempo.

Deixe-me explicar melhor.

Conheci um menino lindo e bagunceiro que me escolheu, sentou no meu colo e preocupou-se se eu estava ou não comendo na festa do apadrinhamento. Encantei.

Quanto fui saber da sua história, veio a parte séria. Assustei.

Durante o apadrinhamento, testou no início, se acostumou com a rotina e não conseguimos mais ficar longe. Apaixonei.

Quando veio para casa definitivamente, na mesma semana, os testes triplicaram, beirando revolta e o namoro acabou. Virou coisa séria. Parece que quebrou no transporte. Surtei.

Custei um pouco a entender porque nosso maior desejo (nos adotarmos) havia virado um problema depois de realizado.

Sorte que havia lido muito e quando Lucas chegou já frequentava grupos de apoio à adoção e podia trocar experiências, então eu já esperava pelos testes, apesar de achar que devido nossa convivência de dois anos de apadrinhamento tudo seria mais fácil. Até que foi, mas nem tanto.

Quando veio para casa, do nada, meu amado começou a surtar quando eu pedia para ir tomar banho, escovar os dentes, arrumar-se para ir para a escola, comer, etc.

Lembro-me da cena dele gritando embaixo do chuveiro: ‘Eu achei que ia ter uma vida boa!’.

Isso me fez refletir também sobre o que é a adoção na visão das crianças que são institucionalizadas desde muito cedo e não tem uma noção de família. Para muitos é isso mesmo. Ter uma vida boa, ter coisas materiais e a chance de sair do abrigo. Comecei a entender que o que estava rolando era uma frustração de achar que não teria regras ou mesmo o maior medo da maioria dos adotados: a devolução. Sem contar o sentimento de culpa em separar-se da família e as crises de choro que já mencionei.

Caberia agora aos poucos apertarmos os parafusos e com o tempo nos acertarmos.

Errei muito, dei muita bronca e peguei pesado até demais no início. Mas ao mesmo tempo, nunca o deixei perceber minha insegurança. O melhor que fiz foi deixar claro que era definitivo independente do caos que fosse criado, que eu não o devolveria e ele não poderia me devolver.

Certa vez, ele pegou a mochila, encheu de brinquedos e roupas e disse que iria embora. Eu abri a porta e mandei ir. Disse que se fosse não voltava e que deveria deixar tudo que eu havia dado a ele já que ele não gostava de mim. Por dentro eu estava destroçado.

Não foi. Parou na porta. Deu um tempo depois veio dizer que me ama com uma frase que guardarei para sempre: ‘Desculpa, eu não tô acostumado a ter pai.’ Respondi: ‘ Também não tô acostumado a ter filho, mas tô muito feliz’.

Essa situação caótica nos aproximou muito e fomos aos poucos, nos entendendo e aprendendo muito.

Hoje estamos mais seguros e ainda errando muito na tentativa de acertar.

 

Peterson Rodrigues

Pai do Lucas

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