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Organização de Apoio à Adoção

Devolução na adoção: é preciso navegar para além da tempestade. – Por Juliana Fiorott

Devolução na adoção: é preciso navegar para além da tempestade. – Por Juliana Fiorott

Devolução na adoção: é preciso navegar para além da tempestade. – Por Juliana Fiorott

A lógica da adoção atua de modo a auxiliar no combate ao abandono na infância e juventude. É uma forma legítima de filiação e construção de vínculos afetivos. O Poder Judiciário busca pais/mães para crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional e já desvinculados à família biológica.
Durante o período de adaptação, em geral, é que se constroem os vínculos afetivos que darão base para uma vivência em família. No entanto, também é no período de adaptação que muitas diferenças surgem. Afinal, temos uma família com um ambiente familiar já estruturado recebendo um novo personagem em confronto com a possibilidade de amparo e o medo de um novo abandono.
Muitas vezes, nestes momentos de maiores conflitos, eis que surge a ideia de devolução. Com isso, torna-se necessário uma abordagem sobre o tema, pensando em fatores de prevenção, para que assim crianças e adolescentes não reeditem suas experiências ligadas ao abandono. É preciso lembrar que, após a sentença que finaliza o processo adotivo, não existe processo de devolução, mas sim uma nova destituição do poder familiar da criança adotada.
Minha implicação com a temática da adoção surgiu há aproximadamente quatro anos, momento em que iniciei minhas atividades como voluntária em um abrigo no município de Porto Alegre. Lá, conheci crianças e adolescentes maravilhosos. Alguns disponíveis para adoção, outros aguardando pelo retorno ao convívio com a família biológica.
Acredito que isso seja um ponto importante e que sempre precisa ser dito: nem todas crianças e adolescentes em situação de acolhimento institucional estão disponíveis para adoção. Muitos ainda mantêm vínculos com a família biológica que passa momentos de reajustamento para poder obter a guarda dos filhos novamente.
Retomando o tema sobre a devolução na adoção, penso que, primeiramente, é preciso esclarecer esse termo tão obscuro. Começamos pela definição do nosso dicionário Aurélio: “apresenta a conotação de um possível engano, significa mandar ou dar de volta o que foi entregue, remetido, esquecido”. Muitos dizem: só devolvemos aquilo que não é verdadeiramente nosso. O que é ser “verdadeiramente nosso”? Penso que há muito para se refletir.
Em um dos meus estágios de psicologia, aprendi que o sucesso da adoção depende muito mais dos pais/mães do que das crianças/adolescentes. Quem nunca foi criança/adolescente e precisou de um olhar adulto para lhe guiar, lhe reforçar comportamentos positivos, ou ainda, lhe punir quando necessário?
O desejo de ter um filho não vem somente no momento da decisão pela adoção. Diversas vezes esse desejo vem marcado por dores e perdas. É um longo percurso que se atravessa até o momento da definição do perfil, da espera pela chegada do/a filho/a e então o tão sonhado encontro.
Não é um processo rápido, podemos compará-lo a uma viagem de navio entre oceanos, com águas nem sempre tranquilas. Durante essa travessia é que o desejo pela filiação vai aflorando, as expectativas e ansiedades vem à tona. O medo do desconhecido. Muitos serão pais e mães pela primeira vez. Com todas essas expectativas, em alguns momentos, chega-se a idealizar um filho perfeito. Uma criança/adolescente que será grato eternamente por você a ter tirado do abrigo.
A idealização precisa ser elaborada para que a criança real possa ser concebida. Para tudo na vida, quando nossas expectativas são muito elevadas, se não atingidas por completo, nossas frustrações tendem a serem grandes. Não que não se possa sonhar com a chegada do filho, mas que ocorra uma reflexão sobre o papel de filiação, suas responsabilidades, desafios. A filiação tanto biológica quanto adotiva requer cuidado, afeto, paciência, disciplina.
Esse ponto chamado reflexão é o que penso ser a questão chave quando falamos em devolução. Quanto mais reflexão houver, mais consciente os pais e mães estarão a respeito da criança real que irão receber. Reflexão envolve leitura, envolve participação em grupos de apoio, reflexão envolve analisar os seus próprios preconceitos, suas crenças.
Assim, quanto mais conscientes de que aquela criança/adolescente, por mais que esteja em uma “fase de testes”, por mais que diga que “o abrigo é mais legal, quero voltar” ou “tu não és minha mãe/pai de verdade”, ou até um “eu te odeio”, mais tranquilidade terá ao lidar com essas emoções que no fundo revelam o medo do abandono já vivenciado em algum momento.
É preciso preparo e resiliência para identificar-se com o outro e poder sentir-se também amparado/a em momentos de desafio. Façamos como os navegadores pioneiros, que mesmo por mares desconhecidos tiveram coragem de seguir adiante em águas turbulentas, pois havia a certeza de que em um processo de travessia logo se chegará a um mar que esteja mais calmo e em breve um porto seguro para todos.
 
 
 
Juliana Gomes Fiorott
Estudante de Psicologia

Fonte: ELO – Organização de Apoio à ADOÇÃO: Devolução na adoção: é preciso navegar para além da tempestade. – Por Juliana Fiorott

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