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Organização de Apoio à Adoção

A DEVOLUÇÃO NA ADOÇÃO TARDIA – Por Lizianne Cenci

A DEVOLUÇÃO NA ADOÇÃO TARDIA – Por Lizianne Cenci

A DEVOLUÇÃO NA ADOÇÃO TARDIA – Por Lizianne Cenci

Falar sobre devolução sempre envolve muitas questões e sentimentos. Essencialmente nos traz aquela pergunta: “Por que devolver uma criança que foi tão esperada?” Para respondermos a essa e outras questões relacionadas precisaremos analisar brevemente o que está por traz de uma decisão dessas.
Uma vez me perguntaram por que uma criança é devolvida, se seria culpa da criança. Respondi simplesmente que NUNCA é culpa da criança, mas sim de adotantes despreparados. Mas para explicar melhor precisaremos pensar no que faz adotantes desistirem de uma criança que veio para eles, que foi acolhida em sua casa e que, no entanto, não foi amada o suficiente para superarem as dificuldades e permanecerem com ela para sempre.
Como mãe biológica e por adoção, psicóloga e militante desta causa, posso afirmar que a devolução de uma criança marcará a sua vida e que se ela for devolvida e nunca for adotada, marcará negativamente a sua vida para sempre. Por isso, precisamos atuar de forma preventiva para evitar que devoluções ocorram. Precisamos conscientizar a sociedade que a criança NUNCA é culpada. NUNCA!
Sabemos que a adoção tardia tem muitas especificidades que necessitam ser compreendidas pelos adotantes, a fim de evitarmos devoluções. Leituras sobre o tema e a participação em grupos de apoio são muito importantes para que os adotantes possam se preparar melhor. Esta preparação é fundamental, pois nem sempre as pessoas conseguem ser fortes emocionalmente para suportar as dificuldades e desafios da convivência, testes de limites e inseguranças que as crianças podem apresentar.
Falar de adoção tardia e devolução requer que falemos sobre a fase de adaptação, aquela fase que inicia com a chegada da criança na família, mas que pode durar anos, conforme como cada criança experienciou sua vida até o momento da adoção e de como vivencia esta nova vida que se apresenta a ela e, ainda de acordo com como seus novos pais enfrentam e compreendem esta fase de adaptação.
Essa questão do tempo de adaptação é importante salientar, pois muitas pessoas acham que a adaptação seria um período de alguns poucos meses, pois seria só para a criança se acostumar à nova família. Entretanto, é preciso que se diga e se reforce que a adaptação é lenta e gradual, a criança está tentando confiar nessa nova família, tentando descobrir se é aceita e se é e será amada para sempre. Confiar e amar leva tempo e depende de cada pessoa e suas vivências, ou seja, é um processo individual e específico para cada pessoa. Não temos como prever como será essa fase de adaptação, se mais tranqüila ou mais difícil, e, por isso, é importante que exista uma boa preparação emocional dos adotantes para enfrentar essa fase, como uma forma de prevenção para que não haja devolução. Assim como é fundamental que os adotantes possam compreender o que se passa com a criança, seus sentimentos e seus medos.
A devolução só ocorre porque os adotantes se percebem sem condições de levar adiante aquela adoção, porque se percebem com medo, sem conseguirem lidar adequadamente com aquela criança que está sob sua guarda. Enfim, pessoas despreparadas, que não buscaram o apoio necessário e não conseguiram amar incondicionalmente aquela criança. As fantasias e medos por parte dos adotantes são os grandes culpados pelas devoluções. Fantasias que dizem que aquela criança é desconhecida, que seu comportamento apresentado os assusta e que eles não sabem como agir com ela. Tudo isso só demonstra a falta de preparo e a falta de amor por aquela criança. E o que é pior, essas fantasias são muitas vezes confirmadas por profissionais da saúde despreparados em termos dos aspectos fundamentais de uma adoção tardia, que assustam os adotantes dizendo que aquela criança está manifestando uma perturbação emocional, quando na verdade está somente apresentando comportamentos esperados para a fase que ela está vivenciando.
Por isso é tão importante buscar ajuda se a situação está muito difícil, e nunca desistir de um filho, e se a ajuda não está sendo suficiente, é preciso buscar mais, mudar, se informar, se capacitar para atender as necessidades da criança que está somente dizendo que ainda não está pronta, que precisa de compreensão, segurança e mais amor.
É possível afirmar que não existe uma adoção tardia que seja completamente tranquila nesta fase de adaptação, pois todas as crianças e adolescentes que chegam em uma nova família chegam inseguras, assim como os próprios adotantes também estão inseguros. Por parte da criança existe o receio de amar e perder novamente esse amor e por parte dos adotantes o receio de não saber lidar com o novo, com uma criança que estão conhecendo e que ainda não os ama. Por isso, é muito importante que os adotantes possam amar a criança antes mesmo de conhecê-la, esperando por ela e se preparando para recebê-la e para dar amor, sem esperar receber, pois no início pouco receberão, porque a criança ainda não sabe dar amor, assim como receber amor também ainda é difícil e assustador para ela. Dar amor à criança aqui se traduz por compreendê-la, entender seu comportamento e respeitar seus medos e seu tempo, sabendo que no momento certo e aos poucos tudo irá melhorar, com muito amor, paciência, limites e sabedoria.
Chegará o dia que dar e receber amor será natural, a criança e seus pais poderão desfrutar desse amor com alegria, mas enquanto esse momento não chega, é possível somente os pais manifestarem seu amor pela criança, através da compreensão de seus sentimentos, da presença firme e da constante reafirmação que o amor que sentem é para sempre. Logo o “para sempre” será sentido pela criança, a fase de adaptação passará e ela se sentirá fazendo parte desta família que a acolheu e a amou de forma incondicional, como certamente ela sempre sonhou.

LIZIANNE CENCI

PSICÓLOGA
CRP 07/06543

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